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O homem que comeu o trem
Publicado: quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Hélverton Baiano escreve às terças-feiras no Jornal Diário da Manhã

Anfrísio Pimenta ficava ali de botuca, no quintal de casa, todo santo dia, esperando passar o trem das seis e meia. Depois ia trabalhar na fábrica de tecidos. Vezes havia em que esperava até a passagem de outros trens ... trens ... trens ... trens ... e perdia a hora. Entretia-se, gostava muito. Da janela da fábrica, espiava e espreitava os trens maneiros rumo ao infinito, se perdendo na distância, se encontrando com o horizonte, adentrando seu mundo como se carreassem sonhos e iam, iam e iam, iam.

Seu nome de rua era Pitoco do Trem e pegou também porque Anfrísio era de um conhecimento apetecido do gosto popular. E bem que gostava do apelido. Só não se sentia totalmente realizado por nunca ter conseguido trabalhar na linha, mesmo gestionando e apelando. Trabalhava esse sonho, o que lhe bastava em lirismo e emoção. O trem passando dia após dia o contentava. Ficava arrepiado e extasiava-se na amizade que conseguiu dos maquinistas, o que lhe rendia acenos e gestos carinhosos quando o trem passava. A resposta saía cheia de agrado. Aos domingos, um passeio de trem, indispensável, para aproximar-se da plenitude, unir-se ao sonho.

Dona Emericiana vivia embotucada com a destinação do marido.

– Cê num dá ligança mais pra mim, Pitoco!

Ele não respondia, sabendo que a mulher queria tocar outra vez no assunto. Bastavam já as discussões havidas e asseverava que não se descuidava nem da casa nem da mulher. Ela que entendesse, ora bolas! Quando foi pra casar, esse assunto num botou empecilho.

– O café, Pitoco! – gritava da cozinha.

Ele saía para a fábrica, esquecendo o desjejum. Espreitava em esperas a passagem do trem. Outras vezes, tomava o café no quintal, alimentando seu deleite matinal.

***

Deu de ficar acabrunhado com as últimas notícias do lugar, causando ainda mais preocupações a Dona Emericiana, que tentou formas alternativas de convencimento e nada. Nada dava volta na tristeza do homem. Ela tentava e a resposta era monossilábica, um murmúrio.

– Come, home de Deus! – implorava.

– Arrree!

Pitoco foi emagrecendo, nas poucas carnes que tinha. A estrada estava perto de ser inaugurada. No dia da inauguração, o último trem partiu, com comitiva de autoridade e foguetório. Ele botou uma arma na cintura e foi para o quintal, cedinho ainda, ao som dos fogos de artifício da festa do prefeito e dos outros, que faziam a última viagem no trem, como parte das comemorações.

– Pra que essa arma, home de Deus? – indagou ela.

– Nada não. Eles vão ver!

Enquanto o trem se aproximava, Pitoco desceu para os trilhos, afligindo a comitiva, que gritava desesperada. O trem seguia mesmo assim e se aproximava e era enorme, muito grande a cada instante. Pitoco foi ao seu encontro, caminhando resoluto e abrindo a boca. Andava e mais abria a boca, sempre mais, muito mais e mais ainda e baranhannnhannn.

– O café, Pitoco! – da cozinha, gritou Dona Emericiana.

Com ele ficou a certeza de que comeria o trem e – “cá pra nós, bem baixinho” – as autoridades também.

Este causo foi enviado por: Hélverton Baiano

 
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